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'O Sangue do Olimpo' disponível para download e para ler online

.. terça-feira, 14 de outubro de 2014 Nenhum comentário:

Antes de qualquer coisa, preciso dizer isto: Uau. 
Terminei a leitura de 'O Sangue do Olimpo' domingo (12/10) e até agora estou pasma. Bom, já aviso-lhes que estou preparando uma postagem sobre o último volume da série 'Os Heróis do Olimpo', lançado dia 7 de Outubro, segunda-feira passada.
Mas enfim, trago-lhes boas novas. Novamente, a Máfia dos Livros realizou seu trabalho de forma incrível e surpreendente, o livro 'O Sangue do Olimpo' — novamente, UAU. — já está disponível para download em formato PDF, disponível para computadores e celulares (e demais dispositivos); Claro que, não é em seu formato original, pois no arquivo PDF há propagandas e o 'menu' do livro, contendo os capítulos que, ao todo somam 58 (em número romano, LVII) capítulos; todavia, eu levei um susto quando o vi: Menor que seu antecessor, 'A Casa de Hades', que possui quase 500 páginas, enquanto 'O Sangue do Olimpo', 430 (isto se incluso o glossário).
Disponibilizo aqui, o link do livro que como já dito, em formato PDF (ou seja, é necessário baixá-lo para ler seu conteúdo) e com créditos totais à Máfia dos Livros. Eu gostaria de relembrar que, como já citado no título da postagem, disponibilizarei o livro inteiro para ser lido online, através do blog, e mais, ainda esta semana. Portanto, se você ainda não leu o primeiro capítulo do livro, leia aqui.

E só para constar aos curiosos, Rick deixou um 'recadinho' logo no início do livro, o qual não me canso de ler, segue:


Para meus maravilhosos leitores.
Perdão pelas desculpas por aquele último suspense na história.
Vou tentar evitar suspenses neste livro.
Bem, talvez eu mantenha alguns…
Porque eu amo vocês


Abaixo, você poderá efetuar o download do livro, e para evitar erros, deixei dois links, o link 1 é a página para download, o link 2 o arquivo direto, mas ambas são a mesma coisa; são 2 links apenas para caso haja algum problema, para que você possa recorrer ao outro link confiante de que funcionará.
Bom aproveito e, caso conheça alguém ou se você mesmo quiser ler online, fique atento, em breve estará disponível no Percyanaticos BR.



Obs: Já estão disponíveis 5 capítulos de 'O Sangue do Olimpo', para lê-los, clique aqui.

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O Sangue do Olimpo

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Autor: Rick Riordan
Editora Brasileira: Intrínseca
Páginas: 430
Capítulos: 58
Volume: 5 

Sinopse:

Depois de enfrentarem as mais penosas missões, Percy Jackson e os outros tripulantes do Argo II ainda precisam encarar a pior delas: chegar a Atenas a tempo de impedir que Gaia desperte. Neste último volume da série Os heróis do Olimpo, a Atena Partenos irá para o oeste, enquanto o Argo II seguirá para leste. Os deuses, ainda sofrendo com a dupla personalidade, não podem ajudar. Como os semideuses conseguirão vencer sozinhos um exército de gigantes e impedir uma guerra entre os acampamentos? A viagem para Atenas é perigosa, mas não outra opção. Eles já sacrificaram muito para chegar onde estão. E, se Gaia despertar, será o fim. 



Capítulo 1
Capítulo 2 
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5 

Obs: Em breve mais capítulos estarão disponíveis. Para acompanhar a postagem de cada um, você pode tornar-se um seguidor, recebendo diretamente as novidades. Caso queria ler em pdf (download do livro), clique aqui
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O Sangue do Olimpo - CAP. V

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V
REYNA

MERGULHAR DE CABEÇA EM UM vulcão não estava na lista de tarefas de
Reyna para aquele dia.
Ela se encontrava a mil e quinhentos metros de altura quando avistou
pela primeira vez o sul da Itália. A leste, acompanhando a meia-lua do
Golfo de Nápoles, as luzes das cidades adormecidas cintilavam na
escuridão que antecedia o amanhecer. A trezentos metros abaixo de
Reyna, uma caldeira de quase um quilômetro de diâmetro bocejava no
alto de uma montanha, uma coluna de vapor branco subindo de sua boca
escancarada.
A desorientação levou um momento para se dissipar. As viagens nas
sombras sempre a deixavam tonta e enjoada, como se ela tivesse sido
retirada das águas geladas de um frigidário e levada direto para a sauna
de uma casa de banhos romana.
Só então ela se deu conta de que estava suspensa em pleno ar. A
gravidade entrou em ação, e ela começou a cair.
— Nico! — gritou Reyna.
— Pelas flautas de Pã! — exclamou Gleeson Hedge.
Nico se sacudia todo a ponto de quase se soltar de Reyna.
— Uáááááááá! — fez ele.
Mas ela o segurou firme.
Reyna pegou o treinador Hedge pelo colarinho da camisa quando o
impulso da queda começou a levá-lo para longe. Se eles se separassemnaquele momento, estariam mortos.
Os três despencavam a toda, direto para o vulcão. Atrás deles vinha a
maior bagagem que traziam: a Atena Partenos de doze metros de altura,
presa por correias às costas de Nico como um paraquedas nem um pouco
eficiente.
— Vejam lá embaixo, o Vesúvio! — gritou Reyna, mais alto que o
ruído do vento. — Nico, nos transporte daqui!
Os olhos dele estavam arregalados e desfocados de pavor. Seu cabelo
negro bagunçado estapeava todo o seu rosto como um corvo surgido do
nada no céu.
— Eu… eu não consigo! Não tenho força!
O treinador Hedge gritou:
— Saiba de uma coisa, garoto: bodes não voam! Então tire a gente
daqui ou vamos virar omelete de Atena Partenos!
Reyna tentou pensar. Ela podia aceitar a morte se necessário, mas, se
a Atena Partenos fosse destruída, seria o fracasso da missão. Isso ela
não podia aceitar.
— Nico, faça a viagem — ordenou ela. — Eu empresto minha força a
você.
Ele a olhou sem entender.
— Como…?
— Agora!
Ela apertou a mão dele com ainda mais força. O símbolo de Belona
tatuado em seu antebraço ficou dolorosamente quente, como se estivesse
sendo marcado em sua pele naquele momento.
Nico arfou. A cor voltou ao seu rosto. Quando estavam prestes a
alcançar a coluna de vapor que se erguia do vulcão, mergulharam nas
sombras.
O ar ficou gélido. O ruído do vento foi substituído por uma cacofonia
de vozes sussurrando em mil línguas. Reyna sentiu como se suasentranhas fossem uma raspadinha doce: xarope de fruta sobre gelo
triturado, sua sobremesa preferida quando era criança em Viejo San
Juan.
Por que aquela lembrança tinha ressurgido justo naquele momento,
quando estava à beira da morte? Então sua visão clareou: seus pés
estavam firmes no chão.
O céu a leste tinha começado a clarear. Por um instante Reyna achou
que estivesse de volta a Nova Roma: colunas dóricas circundavam um
átrio do tamanho de um campo de beisebol; à frente dela, um fauno de
bronze erguia-se no meio de uma fonte d’água rebaixada e decorada com
mosaicos.
Delicadas murtas e roseiras floresciam em um jardim ali perto.
Palmeiras e pinheiros projetavam-se em direção ao céu. Caminhos
calçados com pedras levavam dali do pátio em várias direções; vias
retas e regulares de boa construção romana, ao longo das quais se viam
casas baixas de pedra com pórticos sustentados por colunatas.
Reyna se virou. Atrás dela estava a Atena Partenos, intacta e
imponente e enorme, como um enfeite de jardim ridiculamente grande. O
pequeno fauno de bronze na fonte tinha os dois braços levantados e
estava de frente para Atena, de forma que parecia estar recuando de
medo dos recém-chegados.
O Monte Vesúvio assomava no horizonte, uma forma escura e
encurvada como um corcunda, agora a quilômetros de distância. Colunas
espessas de vapor subiam do cume.
— Estamos em Pompeia — reconheceu Reyna.
— Hum, isso não é bom… — disse Nico, para logo em seguida
desmaiar.
— Epa! — exclamou o treinador Hedge, pegando-o antes que ele
caísse no chão.O sátiro então o colocou apoiado nos pés de Atena e soltou as
correias que prendiam o menino à estátua.
Reyna também sentia as pernas bambas. Já esperava alguma reação
adversa. Acontecia sempre que ela transmitia força. Mas ela não
imaginava que Nico di Angelo carregasse uma angústia assim tão brutal.
Reyna se sentou pesadamente, mal conseguindo se manter consciente.
Pelos deuses de Roma. Se aquilo era apenas uma parte da dor de
Nico… como ele conseguia suportar?
Ela tentou recuperar o fôlego enquanto o treinador Hedge verificava
suas provisões. As pedras rachavam em torno das botas de Nico. A
escuridão parecia irradiar dele como uma rajada de tinta, como se o
corpo de Nico estivesse tentando expelir todas as sombras através das
quais ele tinha viajado.
No dia anterior tinha sido pior: um campo inteiro murchando,
esqueletos se erguendo da terra. Reyna não fazia a menor questão de que
aquilo tornasse a acontecer.
— Beba alguma coisa.
Ela ofereceu a Nico um cantil de poção de unicórnio: pó de chifre
com água santificada do Pequeno Tibre. Haviam descoberto que a
mistura funcionava com Nico melhor que néctar, ajudando a limpar a
fadiga e a escuridão de seu organismo com menos risco de combustão
espontânea.
Nico bebeu com avidez. Ainda parecia péssimo. Sua pele tinha uma
coloração azulada, suas bochechas estavam encovadas. Preso ao cinto
do menino, o cetro de Diocleciano brilhava em um furioso roxo, como
um hematoma radioativo.
Ele olhou para Reyna intrigado.
— Como você fez isso… essa onda de energia?
Reyna virou o antebraço. A tatuagem ainda queimava como cera
quente: o símbolo de Belona, SPQR, com quatro linhas por seus anos deserviço.
— Não gosto de falar sobre isso. Mas é um poder que vem da minha
mãe. Posso transmitir parte da minha força, compartilhá-la.
O treinador Hedge ergueu os olhos de sua mochila.
— Sério? E por que não fez isso comigo, garota romana? Eu quero
supermúsculos!
Reyna fez uma cara feia.
— Não funciona assim, treinador. Só posso fazer isso em casos de
vida ou morte, e é mais útil em grupos grandes. Quando estou no
comando em uma batalha, posso transmitir qualquer atributo que eu
tenha, seja força, coragem ou resistência, multiplicado pelo tamanho das
minhas tropas.
Nico ergueu uma sobrancelha.
— Bem útil para uma pretora romana.
Reyna não respondeu. Ela preferia não mencionar seu poder
exatamente por essa razão. Não queria que semideuses sob seu comando
achassem que ela os estava controlando, ou que ela havia se tornado
líder porque tinha algum poder mágico especial. Na verdade, ela só
podia transmitir, ou “emprestar”, qualidades que já possuísse e não
podia ajudar ninguém que não fosse digno de ser um herói.
O treinador Hedge resmungou:
— Que pena. Seria legal ter supermúsculos.
E voltou a remexer em sua mochila, que parecia conter uma infinidade
de utensílios de cozinha, itens de sobrevivência e equipamentos
esportivos diversos.
Nico tomou mais um gole da poção de unicórnio. Seus olhos estavam
pesados de cansaço, mas Reyna percebia que ele se esforçava para
permanecer acordado.
— Você quase caiu agora há pouco — observou ele. — Quando usa
esse seu poder, você recebe algum… hã… retorno de mim?— Não é como ler mentes — explicou ela. — Ou uma ligação
empática. É só… uma onda temporária de exaustão. Emoções primais.
Sou inundada pela sua dor. Tomo para mim uma parte do seu fardo.
Nico assumiu uma expressão receosa.
Ele girou o anel de caveira de prata no dedo, do mesmo modo que
Reyna fazia com o próprio anel de prata quando estava pensando. Ter o
mesmo hábito que o filho de Hades a deixou desconfortável.
Ela havia sofrido mais por Nico durante a breve conexão entre eles
do que por toda a sua legião durante a batalha contra o gigante Polibotes.
Aquilo a havia exaurido mais do que a última vez em que ela havia
usado o poder, para sustentar seu pégaso, Cipião, durante sua viagem
através do Atlântico.
Ela tentou afastar a lembrança. Seu corajoso amigo alado, morrendo
envenenado, com o focinho em seu colo, olhando para ela com confiança
enquanto ela erguia a adaga para acabar com seu sofrimento… Pelos
deuses, não. Não podia ficar remoendo a situação, ou isso a destruiria.
Mas a dor que havia sentido por causa de Nico era mais forte.
— Você precisa descansar — disse Reyna a ele. — Depois de dois
saltos seguidos, mesmo com uma ajudinha… você tem sorte de estar
vivo. Vamos precisar que esteja pronto de novo antes do anoitecer.
Ela se sentiu mal por pedir a ele algo impossível. Infelizmente, no
entanto, ela tinha muita prática em forçar semideuses além de seus
limites.
Nico cerrou os dentes e assentiu.
— Estamos presos aqui. — Ele observou as ruínas a sua volta. —
Pompeia é o último lugar que eu teria escolhido para aterrissar. Este
lugar está cheio de lemures.
— Lêmures? — O treinador Hedge parecia estar fazendo uma espécie
de armadilha com linha de pipa, uma raquete de tênis e uma faca de caça.
— Está se referindo àquelas criaturinhas peludas?— Não. — Nico respondeu com um tom aborrecido, como se lhe
fizessem aquela pergunta muitas vezes. — Lemures. Fantasmas raivosos.
Eles existem em todas as cidades romanas, mas em Pompeia…
— A cidade inteira foi arrasada — lembrou Reyna. — Em 79 EC. O
Vesúvio entrou em erupção e cobriu a cidade de cinzas.
— Uma tragédia como essa cria muitos espíritos raivosos.
O treinador Hedge lançou um olhar desconfiado para o vulcão a
distância.
— Está soltando fumaça. Isso é um mau sinal?
— Humm… não sei. — Nico mexia distraidamente em um furo de sua
calça jeans preta, na altura do joelho. — Os deuses da montanha, os
ourae, sentem quando há algum filho de Hades por perto. Talvez tenha
sido por isso que fomos desviados do curso. O espírito do Vesúvio
podia estar intencionalmente tentando nos matar. Mas duvido que a
montanha possa nos fazer algum mal dessa distância. Produzir uma
erupção completa demoraria demais. A ameaça imediata está à nossa
volta.
Reyna sentiu a nuca formigar.
Ela se acostumara aos Lares, os espíritos amistosos do Acampamento
Júpiter, mas até eles a deixavam desconfortável. Não tinham muita noção
de espaço pessoal. Às vezes passavam direto através dela, deixando-a
com vertigem. Estar em Pompeia dava a Reyna a mesma sensação, como
se a cidade inteira fosse um grande fantasma que a tivesse engolido
inteira.
Ela não podia contar aos amigos quanto temia os fantasmas nem por
que tinha medo deles. Todo o motivo que levara Reyna e sua irmã a fugir
de San Juan, tantos anos antes… Ela precisava manter esse segredo.
— Você consegue impedir que eles nos alcancem? — perguntou ela.
Nico virou as palmas das mãos para cima.— Já enviei a mensagem: fiquem longe. Mas é só eu dormir que isso
não vai mais adiantar muito.
O treinador Hedge deu umas batidinhas com seu equipamento
improvisado a partir de uma faca com raquete de tênis.
— Não se preocupe, garoto. Vou cercar este lugar com alarmes e
armadilhas. E vou estar de vigia com meu taco de beisebol, cuidando de
você o tempo todo.
Isso não foi suficiente para tranquilizar Nico, mas o menino já estava
fechando os olhos.
— Está bem. Mas… vá com calma, hein. Não queremos repetir o
episódio da Albânia.
— Não mesmo — concordou Reyna.
A primeira experiência dos três juntos viajando nas sombras, dois
dias antes, tinha sido um fiasco completo, possivelmente o episódio mais
humilhante na longa carreira de Reyna. Talvez um dia, se sobrevivessem,
eles dessem boas risadas ao se lembrar da situação, mas não agora. Os
três tinham concordado em nunca falar no assunto. O que tinha
acontecido na Albânia era para ficar na Albânia.
O treinador Hedge pareceu magoado.
— Está bem, como quiserem. Só descanse, garoto. Estamos lhe dando
cobertura.
— Tudo bem. Talvez um pouco… — disse Nico e chegou a tirar a
jaqueta de aviador e dobrá-la para servir de travesseiro, justo antes de
se virar para o lado e já começar a roncar.
Como ele parecia em paz, observou Reyna, impressionada. As rugas
de preocupação sumiram. Seu rosto se tornou estranhamente angelical…
como seu sobrenome, di Angelo. Ela quase podia acreditar que ele era
um garoto normal de catorze anos, não um filho de Hades que tinha sido
arrancado dos anos quarenta e obrigado a encarar mais tragédias e
perigos do que a maioria dos semideuses enfrentaria em toda uma vida.Reyna não confiava em Nico no início, logo que ele chegara ao
Acampamento Júpiter. Tinha sentido que a história dele não se resumia a
atuar como embaixador do pai, Plutão. Agora, é claro, ela sabia a
verdade. Ele era um semideus grego, o único dos últimos tempos (e
talvez o único que já existira) a transitar entre os acampamentos grego e
romano sem contar a um grupo da existência do outro.
Estranhamente, isso só fazia com que Reyna confiasse mais em Nico.
Claro, ele não era romano. Nunca havia caçado com Lupa nem
passara pelo brutal treinamento na legião. Mas Nico tinha provado seu
valor de outras maneiras. Ele havia mantido em segredo a existência dos
acampamentos pela melhor das razões: por temer uma guerra. Tinha
mergulhado sozinho no Tártaro, voluntariamente, para encontrar as
Portas da Morte. Tinha sido capturado e preso por gigantes. Tinha
comandado a tripulação do Argo II até a Casa de Hades… e agora tinha
aceitado mais uma missão terrível: arriscar a própria vida para levar a
Atena Partenos de volta ao Acampamento Meio-Sangue.
O ritmo da jornada era de uma lentidão enlouquecedora. Eles só
podiam viajar nas sombras algumas centenas de quilômetros por noite e
precisavam descansar durante o dia, para que Nico se recuperasse. E
mesmo nesse ritmo lento, a viagem exigia uma energia de Nico que
Reyna imaginava impossível.
Ele carregava tamanha tristeza e solidão, tanto sofrimento, mas
mesmo assim a missão era sua prioridade. Ele perseverava. Reyna
respeitava isso. Entendia isso.
Ela nunca tinha sido do tipo sensível e sentimental, mas agora teve o
estranhíssimo impulso de tirar o próprio manto para cobrir Nico.
Reprovou-se mentalmente pela ideia. Ele era um companheiro de
batalhas, não seu irmão mais novo. Nico não iria gostar do gesto.
— Ei! — exclamou o treinador Hedge, interrompendo seus
pensamentos. — Você também precisa dormir. Vou assumir o posto devigia e depois vocês revezam comigo. Enquanto isso, preparo alguma
coisa para a gente comer. Aqueles fantasmas não devem ser tão
perigosos agora que o sol está nascendo.
Reyna não havia percebido que estava clareando. Nuvens em tons de
cor-de-rosa e turquesa riscavam o horizonte a leste. A sombra do
pequeno fauno de bronze se projetava sobre a fonte seca.
— Já li sobre este palácio — lembrou-se Reyna. — É uma das villas
mais bem-preservadas de Pompeia. É chamada de A Casa do Fauno.
Gleeson lançou um olhar de repulsa para a estátua.
— Bem, hoje vai ser a Casa do Sátiro.
Reyna se permitiu um sorriso. Estava começando a apreciar as
diferenças entre sátiros e faunos. Se ela dormisse enquanto um fauno
ficasse de vigia, acordaria com toda a sua comida roubada, um bigode
desenhado na cara e o fauno já muito longe. O treinador Hedge era
diferente; em quase tudo, diferente para o bem, apesar de sua obsessão
doentia por artes marciais e tacos de beisebol.
— Muito bem — concordou ela. — Você é o primeiro a ficar de
vigia. Vou botar Aurum e Argentum de guarda com você.
Hedge fez menção de protestar, mas Reyna logo deu um assovio curto
e alto. Seus cães metálicos se materializaram no meio das ruínas e foram
correndo até ela, de diferentes direções. Mesmo depois de tantos anos,
Reyna ainda não sabia de onde eles vinham nem para onde iam quando
ela os dispensava, mas era reanimador vê-los.
Hedge pigarreou.
— Tem certeza de que não são dálmatas? Eles parecem dálmatas.
— São apenas galgos, treinador. — Reyna não fazia ideia do porquê
de Hedge ter medo de dálmatas, mas estava cansada demais para
perguntar. — Aurum e Argentum, fiquem de guarda enquanto eu durmo.
Obedeçam a Gleeson Hedge.Os cães deram a volta no pátio, mantendo distância da Atena
Partenos, que irradiava hostilidade por tudo que era romano.
A própria Reyna só agora estava se acostumando à presença da
estátua, que, ela tinha quase certeza, não devia ter gostado nem um pouco
de ter sido levada para uma antiga cidade romana.
Ela deitou e se cobriu com o manto roxo. Levou a mão à bolsa presa
no cinto, na qual guardava a moeda de prata que Annabeth lhe dera antes
de se separarem em Épiro.
É um sinal de que as coisas podem mudar, tinha dito Annabeth. A
Marca de Atena agora é sua. Talvez a moeda lhe traga sorte.
Reyna não tinha tanta certeza.
Ela deu uma última olhada no fauno de bronze se encolhendo diante
do amanhecer e na Atena Partenos. Então fechou os olhos e deixou-se
mergulhar nos sonhos.
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O Sangue do Olimpo - CAP. IV

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IV
JASON

E ESTAVA INDO TUDO MUITO bem, até ele ser apunhalado.
Jason desenhou um grande arco com sua espada, vaporizando os
pretendentes mais próximos, depois pulou para cima da mesa e dali
saltou sobre a cabeça de Antínoo. Em pleno ar, desejou que sua espada
se transformasse em uma lança, um truque que nunca havia tentado com
aquela arma mas que por algum motivo ele sabia que iria funcionar.
Caiu de pé com um pilum de quase dois metros de comprimento nas
mãos. Quando Antínoo se virou para enfrentá-lo, Jason enfiou a ponta de
ouro imperial no peito do ghoul.
Antínoo olhou para baixo sem poder acreditar.
— Você…
— Divirta-se nos Campos de Punição.
Quando Jason puxou o pilum, Antínoo se desfez em terra. Jason então
continuou a lutar, girando sua lança, fazendo-a atravessar fantasmas,
derrubando ghouls.
Do outro lado do pátio, Annabeth lutava como um demônio. Sua
espada de osso de drakon cortava e derrubava qualquer pretendente
burro o bastante para enfrentá-la.
Perto da fonte de areia, Piper também havia sacado sua espada, a
lâmina denteada de bronze celestial que ela roubara do Boreada Zetes.
Ela golpeava e se defendia com a mão direita e de vez em quandoatirava tomates da cornucópia com a esquerda, gritando para os
pretendentes: — Salvem-se! Eu sou perigosa demais!
Isso devia ser exatamente o que eles queriam ouvir, porque todos
saíam correndo para logo depois pararem, confusos, alguns metros
morro abaixo, e voltarem para a luta.
O tirano grego Hípias avançou sobre Piper com sua adaga erguida,
mas ela o acertou em cheio no peito com uma bela carne assada. Ele caiu
de costas na fonte e gritou enquanto se desintegrava.
Uma flecha foi zunindo na direção do rosto de Jason. Ele a desviou
com um sopro de vento, depois atravessou uma linha de ghouls armados
com espadas e percebeu uma dezena de pretendentes se reagrupando
perto da fonte para atacar Annabeth. Ele levantou a lança para o céu. Um
raio ricocheteou da ponta e explodiu os fantasmas em íons, deixando uma
cratera fumegante onde antes ficava a fonte.
Durante os últimos meses, Jason tinha lutado muitas batalhas, mas
havia se esquecido de como era se sentir bem durante o combate. Claro
que ele ainda tinha medo, mas um peso enorme fora tirado de seus
ombros. Pela primeira vez desde que acordara no Arizona sem suas
lembranças, Jason se sentia completo. Ele sabia quem era. Escolhera sua
família, e ela nada tinha a ver com Beryl Grace nem mesmo com Júpiter.
Incluía todos os semideuses que lutavam ao seu lado, romanos e gregos,
amigos novos e velhos. Ele não ia deixar ninguém destruir sua família.
Jason invocou os ventos e arremessou três ghouls encosta abaixo
como se fossem bonecos de pano. Ele perfurou um quarto, depois
desejou que a arma encolhesse e se transformasse outra vez em espada e
golpeou através de outro grupo de espíritos.
De repente, não havia mais inimigos. Os fantasmas remanescentes
começaram a desaparecer sozinhos. Annabeth acertou Asdrúbal, o
cartaginês, e Jason cometeu o erro de embainhar sua espada.Uma dor queimou na base de suas costas, tão forte e gelada que ele
achou que a deusa da neve, Quione, o havia tocado.
Perto de seu ouvido, Michael Varus disse com raiva:
— Nasceu como romano, morra como romano.
A ponta de uma espada de ouro surgia pela frente da camisa de Jason,
logo abaixo de suas costelas.
Jason caiu de joelhos. O grito de Piper parecia soar a quilômetros de
distância. Ele sentiu como se tivesse sido mergulhado em água salgada:
o corpo sem peso, a cabeça balançando.
Piper correu em sua direção. Ele viu como que anestesiado a espada
dela passar por cima de sua cabeça e atravessar a armadura de Michael
Varus com um som metálico.
Uma brisa fria balançou o cabelo de Jason. Pó caiu a sua volta, e um
capacete vazio de legionário rolou sobre as pedras. O semideus do mal
estava acabado, mas tinha deixado uma última impressão antes de partir.
— Jason!
Piper o segurou pelos ombros quando ele começou a tombar para o
lado. Ele soltou um gemido de dor quando ela puxou a espada de suas
costas. Então ela o deitou no chão e apoiou sua cabeça em uma pedra.
Annabeth vinha correndo para perto deles. Ela tinha um corte feio na
lateral do pescoço.
— Pelos deuses. — Annabeth não tirava os olhos da ferida na barriga
de Jason. — Ah, meus deuses.
— Obrigado — disse Jason, com a voz fraca. — Eu estava com medo
de que a coisa fosse feia.
Os braços e pernas dele começaram a formigar enquanto seu corpo
entrava em “modo crise”, concentrando o sangue em seu tronco. A dor
era entorpecente, o que o surpreendeu, mas sua camisa estava ensopada
de sangue. A ferida fumegava. Ele tinha quase certeza de que ferimentos
de espada não soltavam fumaça.— Você vai ficar bem. — Piper pronunciou as palavras como se fosse
uma ordem. Seu tom de voz normalizou a respiração dele. — Annabeth,
ambrosia!
A garota pareceu despertar de seu torpor.
— É. É. Eu tenho.
Annabeth abriu sua bolsa de suprimentos e desembrulhou um pedaço
do alimento dos deuses.
— Precisamos estancar o sangramento.
Piper usou a adaga para cortar um pedaço da barra de seu vestido.
Ela rasgou o tecido e fez ataduras. Jason se perguntou vagamente onde
ela tinha aprendido tanto sobre primeiros socorros. Ela envolveu os
ferimentos nas costas e na barriga de Jason enquanto Annabeth botava
pedacinhos de ambrosia na boca dele.
Os dedos de Annabeth tremiam. Depois de tudo pelo que havia
passado, Jason achava estranho que ela fosse surtar naquele momento,
quando Piper parecia tão calma. Então ele entendeu: Annabeth podia se
dar ao luxo de ficar preocupada com ele. Piper, não. Ela estava
completamente concentrada em salvá-lo.
Annabeth deu outro pedaço de ambrosia para ele comer.
— Jason, eu… eu sinto muito. Pela sua mãe. Mas o jeito como você
lidou com a situação… foi tão corajoso.
Jason tentava não fechar os olhos. Sempre que fazia isso, via o
espírito da mãe se desintegrando.
— Não era ela — disse ele. — Pelo menos, nenhuma parte dela que
eu pudesse salvar. Não havia escolha.
Annabeth respirou fundo, abalada.
— Nenhuma escolha certa, talvez, mas… Um amigo meu, Luke. A
mãe dele… teve um problema parecido. Ele não lidou tão bem com a
situação.A voz dela estava embargada. Jason não conhecia muito do passado
de Annabeth, mas Piper olhou preocupada para ela.
— Já fiz o que podia pelo ferimento — disse Piper. — Mas ainda
está sangrando. E não entendo o porquê da fumaça.
— Ouro imperial — disse Annabeth, com a voz trêmula. — É mortal
para semideuses. É só questão de tempo até que…
— Ele vai ficar bem — insistiu Piper. — Precisamos levá-lo de volta
ao navio.
— Não me sinto tão mal — disse Jason. E era verdade. A ambrosia
tinha clareado seus pensamentos. O calor aos poucos voltava para seus
membros. — Talvez eu possa voar…
Ele se sentou. Sua visão ganhou um tom pálido de verde.
— Ou talvez não…
Piper o segurou pelos ombros quando ele ameaçou tombar.
— Eita, espertinho. Precisamos entrar em contato com o Argo II e
conseguir ajuda.
— Você não me chama de espertinho faz muito tempo.
Piper o beijou na testa.
— Fique comigo que ofendo você quanto quiser.
Annabeth examinou as ruínas. A realidade mágica tinha desaparecido,
deixando apenas paredes destruídas e poços de escavação.
— Podíamos usar os sinalizadores de emergência, mas…
— Não — disse Jason. — Leo iria destruir o cume da montanha com
fogo grego. Talvez se vocês duas me ajudarem, eu consiga andar…
— De jeito nenhum — opôs-se Piper. — Ia levar tempo demais. —
Ela abriu a bolsa presa a seu cinto e tirou de lá um espelhinho. —
Annabeth, você sabe código Morse?
— É claro.
— Leo também. — Piper entregou o espelho a ela. — Ele estará
vendo do navio. Vá até o cume…— E saio piscando para ele! — Annabeth corou. — Não era bem isso
o que eu queria dizer. Mas entendi a ideia.
Ela correu até a extremidade das ruínas.
Piper pegou um frasquinho de néctar e o ofereceu a Jason.
— Aguente firme. Você não vai morrer por causa de uma
apunhaladinha qualquer.
Jason conseguiu dar um leve sorriso.
— Pelo menos dessa vez não foi na cabeça. Fiquei consciente durante
a luta inteira.
— Você derrotou, tipo, uns duzentos inimigos — disse Piper. — Isso
foi assustadoramente fantástico.
— Vocês ajudaram.
— Pode ser, mas… Ei, não durma…
A cabeça de Jason começou a cair para a frente. As rachaduras nas
pedras ficaram mais nítidas.
— Estou um pouco tonto — murmurou ele.
— Tome mais néctar — ordenou Piper. — Está gostoso?
— Está. Está, sim.
Na verdade, o néctar estava com gosto de serragem líquida. Desde a
Casa de Hades, quando ele renunciara à sua pretoria, a ambrosia e o
néctar não tinham mais o gosto de seus pratos favoritos do Acampamento
Júpiter. Era como se a lembrança de sua velha casa não tivesse mais o
poder de curá-lo.
Nasceu como romano, morra como romano, dissera Michael Varus.
Ele olhou para a fumaça que subia do curativo. Tinha coisas piores
com que se preocupar do que perda de sangue. Annabeth estava certa
sobre o ouro imperial. Aquilo era mortal tanto para semideuses quanto
para monstros. A ferida de Varus faria o possível para drenar a força
vital de Jason.Ele já vira um semideus morrer daquela forma antes. Não tinha sido
rápido nem bonito.
Não posso morrer, disse para si mesmo. Meus amigos dependem de
mim.
As palavras de Antínoo ecoavam em seus ouvidos: sobre os gigantes
em Atenas, a viagem impossível que aguardava o Argo II, o caçador
misterioso que Gaia enviara para interceptar a Atena Partenos.
— Reyna, Nico e o treinador Hedge estão em perigo — disse ele. —
Precisamos avisá-los.
— Vamos cuidar disso quando voltarmos para o barco — prometeu
Piper. — O que você tem que fazer agora é descansar. — O tom de voz
dela era leve e confiante, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas. —
Além disso, eles são um grupo cascudo. Vão ficar bem.
Jason torceu para que ela estivesse certa. Reyna havia arriscado
muito para ajudá-los. O treinador Hedge às vezes era chato, mas tinha
sido um protetor leal para toda a tripulação. E Nico… Jason estava
especialmente preocupado com ele.
Piper passou o polegar pela cicatriz no lábio dele.
— Quando a guerra terminar… vai dar tudo certo para Nico. Você já
está ajudando como pode sendo amigo dele.
Jason não sabia bem o que dizer. Ele não havia contado nada a Piper
sobre sua conversa com Nico. Tinha guardado o segredo de Di Angelo.
Mesmo assim… Piper parecia sentir que algo estava errado. Como
filha de Afrodite, talvez ela conseguisse perceber quando alguém estava
sofrendo por amor. Mas ela não tinha forçado Jason a falar sobre o
assunto. Ele gostou disso.
Outra onda de dor; Jason fez uma careta.
— Concentre-se em minha voz. — Piper beijou sua testa. — Pense
em alguma coisa boa. Bolo de aniversário no parque em Roma…
— Aquilo foi bom.— No inverno passado — sugeriu ela —, a guerra de marshmallows
em volta da fogueira.
— Eu venci.
— Você ficou com marshmallows no cabelo por dias!
— Mentira.
A mente de Jason viajou para épocas melhores.
Ele só queria ficar ali, conversando com Piper, segurando a mão dela,
sem se preocupar com gigantes, Gaia ou a loucura de sua mãe.
Jason sabia que eles tinham que voltar direto para o navio. Ele estava
muito mal. Eles tinham a informação que tinham ido buscar. Mas, deitado
ali nas pedras frias, Jason sentiu que eles estavam se esquecendo de
alguma coisa. A história dos pretendentes e da rainha Penélope… seus
pensamentos sobre família… seus sonhos recentes. Tudo isso girava em
sua cabeça. Havia algo mais naquele lugar… alguma coisa que ele não
percebera.
Annabeth voltou mancando da beira da colina.
— Você está ferida? — perguntou Jason a ela.
Annabeth olhou para o tornozelo.
— Tudo bem. Só uma fratura antiga de quando eu estava nas cavernas
romanas. Às vezes, quando estou estressada… Isso não é importante.
Avisei Leo. Frank vai mudar de forma, voar até aqui e levar você de
volta ao navio. Preciso fazer uma maca para mantê-lo estável.
Jason teve uma visão aterrorizante de si mesmo em uma rede
balançando entre as garras de Frank, a águia gigante, mas achou que
aquilo era melhor que morrer.
Annabeth começou a trabalhar. Recolheu restos deixados para trás
pelos pretendentes (um cinto de couro, uma túnica rasgada, tiras de
sandálias, uma manta vermelha e algumas hastes de lança quebradas). As
mãos dela trabalhavam rapidamente com esse material, rasgando,
tecendo, amarrando e trançando.— Como você está fazendo isso? — perguntou Jason, impressionado.
— Aprendi durante minha missão no subterrâneo de Roma. —
Annabeth não tirava os olhos do trabalho. — Nunca tive razão para
aprender tecelagem antes, mas é útil para certas coisas, como escapar de
aranhas…
Ela deu um nó no último pedaço de couro e voilà: uma maca grande o
suficiente para Jason, que podia ser carregada pelas hastes das lanças e
com amarras de segurança no centro.
Piper deu um assovio de aprovação.
— Na próxima vez que eu precisar ajustar um vestido, vou pedir sua
ajuda.
— Cale a boca, McLean — disse Annabeth, mas seus olhos
brilhavam de satisfação. — Agora vamos colocá-lo com cuidado…
— Esperem — interrompeu Jason.
O coração dele batia acelerado. Ver Annabeth tecer o leito
improvisado fizera Jason se lembrar da história de Penélope, que havia
resistido aos avanços dos pretendentes por vinte anos enquanto
aguardava a volta do marido, Odisseu.
— Uma cama — disse Jason. — Havia uma cama especial neste
palácio.
Piper pareceu preocupada.
— Jason, você perdeu muito sangue.
— Não estou delirando — insistiu ele. — O leito nupcial era
sagrado. Se houvesse algum lugar onde você pudesse conversar com
Juno… — Ele respirou fundo e chamou: — Juno!
Silêncio.
Talvez Piper tivesse razão. Ele não estava pensando com clareza.
Então, a cerca de dois metros de distância, o chão rachou. Ramos
abriram caminho através da terra, crescendo a uma velocidade espantosa
até que uma oliveira adulta surgiu no pátio. Sob um dossel de folhasverde-acinzentadas estava uma mulher de vestido branco, com um manto
de pele de cabra jogado sobre os ombros. Na ponta de seu bastão havia
uma flor de lótus branca. A expressão dela era tranquila e nobre.
— Meus heróis — disse a deusa.
— Hera — falou Piper.
— Juno — corrigiu Jason.
— Tanto faz — resmungou Annabeth. — O que está fazendo aqui, Sua
Majestade bovina?
Os olhos de Juno cintilaram perigosamente.
— Annabeth Chase. Simpática como sempre.
— É, bem… — disse Annabeth. — Acabei de voltar do Tártaro,
então minhas maneiras estão um pouco enferrujadas, ainda mais quando
falo com deusas que apagaram a memória do meu namorado, o fizeram
desaparecer por meses e depois…
— Sério, criança. Vai começar com isso outra vez?
— Não era para você estar sofrendo de dupla personalidade? —
perguntou Annabeth. — Quer dizer… mais que o normal?
— Calma — interveio Jason. Ele tinha muitas razões para odiar Juno,
mas havia outros problemas com que se preocupar. — Juno, precisamos
de sua ajuda. Nós…
Jason tentou sentar, mas se arrependeu imediatamente. Suas entranhas
pareciam estar sendo revolvidas por um garfo de espaguete gigante.
Piper impediu que ele caísse.
— Depois pensamos nisso — disse ela. — Jason está ferido. Cure-o!
A deusa franziu as sobrancelhas. Sua forma tremeluziu, vacilante.
— Há coisas que nem os deuses podem curar — disse ela. — Essa
ferida atinge tanto a alma quanto o corpo. Você tem que lutar contra ela,
Jason Grace… Você precisa sobreviver.
— É, valeu — disse ele, com a boca seca. — Estou tentando.— O que quer dizer com isso? A ferida atingiu a alma dele? —
perguntou Piper. — Por que você não pode…
— Meus heróis, temos pouco tempo juntos — disse Juno. — Estou
grata por terem me chamado. Passei semanas em estado de dor e
confusão… meus aspectos grego e romano lutando um contra o outro.
Pior, fui obrigada a me esconder de Júpiter, que está furioso sem razão e
procurando por mim, pois acredita que eu provoquei essa guerra com
Gaia.
— Nossa — disse Annabeth, irônica. — Por que ele acharia isso?
Juno olhou irritada para ela.
— Felizmente este local é sagrado para mim. Ao expulsar aqueles
fantasmas, vocês o purificaram e me deram um momento de clareza.
Poderei conversar com vocês, mesmo que por pouco tempo.
— Por que este lugar é sagrado? — Piper arregalou os olhos. — Ah,
o leito nupcial!
— Leito nupcial? Onde? — perguntou Annabeth. — Não estou vendo
nenhum…
— A cama de Penélope e Odisseu — explicou Piper. — Um dos pés
da cama era o tronco de uma oliveira viva, para que ela nunca pudesse
ser movida.
— É verdade. — Juno passou a mão pelo tronco da oliveira. — Um
leito nupcial imóvel. Que símbolo lindo! Como Penélope, a mais fiel das
esposas, resistindo, dispensando cem pretendentes arrogantes por anos
porque sabia que o marido ia voltar. Odisseu e Penélope… o epítome do
casamento perfeito!
Mesmo atordoado, Jason se lembrava muito bem de histórias sobre
Odisseu se encantando por outras mulheres durante suas viagens, mas
resolveu não tocar no assunto.
— A senhora pode pelo menos nos aconselhar? — perguntou ele. —
Nos dizer o que fazer?— Deem a volta no Peloponeso — respondeu a deusa. — Como já
devem desconfiar, é a única rota possível. Quando estiverem a caminho,
procurem a deusa da vitória em Olímpia. Ela está fora de controle. A
menos que consigam detê-la, as diferenças entre gregos e romanos
jamais serão resolvidas.
— Está falando de Nice? — perguntou Annabeth. — Como assim, ela
está fora de controle?
Um trovão ribombou no céu, fazendo a montanha tremer.
— Explicar ia demorar demais — disse Juno. — Preciso ir antes que
Júpiter me encontre. Quando eu partir, não vou poder ajudar vocês de
novo.
Jason segurou uma resposta atravessada: E quando você ajudou a
gente?
— O que mais precisamos saber? — perguntou ele.
— Como souberam, os gigantes se reuniram em Atenas. Alguns
deuses vão poder ajudar vocês em sua viagem, mas eu não sou a única
olimpiana que não está nas graças de Júpiter. Os gêmeos também são
vítimas de sua ira.
— Ártemis e Apolo? — perguntou Piper. — Por quê?
A imagem de Juno começou a desaparecer.
— Se alcançarem a ilha de Delos, eles podem estar ávidos em ajudá-
los. Estão desesperados o suficiente para tentar o que for para consertar
as coisas. Agora, vão. Talvez tornemos a nos encontrar em Atenas, se
vocês conseguirem chegar lá. Senão…
A deusa desapareceu, ou talvez os olhos de Jason tenham
simplesmente falhado. A dor o tomava por inteiro. Sua cabeça pendeu
para trás. Ele viu uma águia gigante voando em círculos no céu. Então
tudo ficou negro, e Jason não viu mais nada
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O Sangue do Olimpo - CAP. III

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III
JASON

DE ALGUM MODO ELE A conhecia. Reconheceu seu vestido — um vestido transpassado florido, todo em verde e vermelho, como toalhas de ceia de Natal. Ele reconheceu os braceletes de plástico coloridos em seus pulsos, que se afundaram nas costas de Jason quando ela o abraçara para se despedir na Casa dos Lobos. Reconheceu seu cabelo, os cachos pintados de louro e o penteado volumoso, e seu aroma de limão e laquê. Os olhos eram azuis como os de Jason, mas brilhavam com uma luz refratada estranha, como se ela tivesse acabado de sair de um abrigo após uma guerra nuclear — avidamente em busca de detalhes familiaresem um mundo mudado.
— Querido.
Ela estendeu os braços.
O restante do mundo desapareceu. Os fantasmas e ghouls não
importavam mais.
O disfarce de Névoa se esvaiu. Ele voltou a ter uma postura ereta. As juntas pararam de doer. O cajado se transformou novamente em um gládio de ouro imperial. A sensação de queimação não parou. Ele sentia como se camadas desua vida estivessem sendo queimadas, seus meses no Acampamento Meio-Sangue, seus anos no Acampamento Júpiter. Ele era novamente um garotinho de dois anos assustado e vulnerável. Até a cicatriz em seulábio, de quando ele tentara comer um grampeador quando bebê, doía como uma ferida recente. 
— Mãe?
— Sim, querido. — A imagem dela tremeluzia. — Venha. Venha me dar um abraço.
— Você… você não é real.
— É claro que ela é real. — A voz de Michael Varus soava distante.
— Você acha que Gaia ia deixar um espírito tão importante se deteriorar no Mundo Inferior? É sua mãe, Beryl Grace, estrela da tevê, namorada do rei do Olimpo, que a rejeitou não apenas uma, mas duas vezes, tanto sob o aspecto romano quanto o grego. Ela merece justiça tanto quanto qualquer um de nós. O coração de Jason vacilou. Os pretendentes se aglomeravam a sua volta, assistindo a tudo.
Sou a diversão deles, percebeu Jason. Os fantasmas provavelmente achavam aquilo ainda mais interessante do que dois mendigos brigando
até a morte.
A voz de Piper surgiu em meio ao zunido em sua cabeça:
— Jason, olhe para mim.
Ela se encontrava a pouco mais de cinco metros de distância, segurando sua ânfora de cerâmica. Não estava mais sorrindo. Seu olhar era duro e autoritário, tão impossível de ignorar quanto a pena azul de harpia em seu cabelo.
— Essa não é sua mãe. A voz dela está lançando alguma magia sobre você, como o charme, só que mais perigoso. Não está sentindo?
— Ela tem razão. — Annabeth subiu na mesa mais próxima e chutou uma travessa, chamando a atenção de uma dezena de fantasmas. — Jason, isso é só um resquício da sua mãe, como uma ara, talvez, ou…
— Um resquício! — O fantasma de Beryl Grace começou a chorar. —Sim, veja a que eu me reduzi. É tudo culpa de Júpiter. Ele nosabandonou. Ele não me ajudou! Eu não queria deixá-lo em Sonoma,
querido, mas Juno e Júpiter não me deram escolha. Eles não iam permitir que ficássemos juntos. Por que lutar por eles agora? Junte-se aos pretendentes. Lidere-os. Podemos voltar a ser uma família!
Jason sentia centenas de olhos sobre si. Essa é a história da minha vida, pensou Jason com amargura. Todo mundo sempre o observando, esperando que ele os liderasse. Desde o momento em que chegara ao Acampamento Júpiter, os semideuses romanos o trataram como um príncipe. Apesar de suas tentativas de alterar seu destino, se juntar à pior coorte, tentar mudar as tradições do acampamento, assumir as missões menos glamorosas e fazer amizade
com os semideuses menos populares, ainda assim ele se tornara pretor. Como filho de Júpiter, seu futuro tinha sido garantido.
Ele se lembrou do que Hércules lhe dissera no Estreito de Gibraltar: 
Não é fácil ser filho de Zeus. É muita pressão. Isso pode fazer um cara
surtar.
Agora Jason estava ali, tenso como a corda de um arco.
— Você me abandonou — disse ele à mãe. — Isso não foi Júpiter nem Juno. Foi você.
Beryl Grace deu um passo à frente. As rugas de preocupação em torno de seus olhos e a rigidez aflitiva em sua boca lembraram a Jason sua irmã, Thalia.
— Querido, eu disse que ia voltar. Foram minhas últimas palavras para você. Não se lembra?
Jason estremeceu. Nas ruínas da Casa dos Lobos, sua mãe o havia abraçado pela última vez, sorrindo, mas com os olhos cheios de lágrimas.
Está tudo bem, garantira ela. Mas mesmo muito pequeno Jason soubera que nada estava bem. Espere aqui. Vou voltar para buscar você. Logo, logo estaremos juntos. Ela não voltou. Em vez disso, Jason ficou andando sem rumo pelas ruínas, chorando, sozinho, chamando pela mãe e por Thalia, até que os lobos foram buscá-lo.A promessa não cumprida de sua mãe estava no âmago de quem ele
era. Jason construíra toda a sua vida em torno da inflamação gerada por aquelas palavras, como o grão de areia no centro de uma pérola.
As pessoas mentem. Promessas são quebradas.
Era por essa razão, por mais que isso o aborrecesse, que Jason seguia as regras. Ele cumpria suas promessas. Não desejava abandonar ninguém, repetir o que haviam feito a ele: mentido e o abandonado.
Agora sua mãe estava de volta, apagando a única certeza que Jason tinha sobre ela: que havia partido para sempre.
Do outro lado da mesa, Antínoo ergueu sua taça.
— É um grande prazer conhecê-lo, filho de Júpiter. Escute sua mãe.
Os deuses cometeram muitas injustiças contra você. Por que não se junta
a nós? Imagino que essas duas criadas sejam suas amigas. Vamos poupá-las. Quer que sua mãe permaneça neste mundo? Podemos fazer isso. Você deseja ser um rei…
— Não. — A mente de Jason girava. — Não, meu lugar não é com vocês.
Michael Varus o encarou com olhos frios.
— Tem certeza, meu colega pretor? Mesmo que derrote os gigantes e Gaia, você voltaria para casa, como fez Odisseu? Onde é seu lar agora? Com os gregos? Com os romanos? Ninguém vai aceitá-lo. E, se você conseguir voltar, quem garante que não vai encontrar ruínas como estas?
Jason observou o pátio do palácio. Sem as varandas e colunatas, não havia nada além de uma pilha de pedras no alto de uma montanha estéril. Só a fonte parecia real, jorrando areia como um lembrete do poder ilimitado de Gaia.— Você era um oficial da legião — disse ele a Varus. — Um líder de Roma.
— Você também era — retrucou Varus. — Nossas lealdades mudam.
— Você acha que eu pertenço a este grupo? — perguntou Jason. — Um bando de perdedores mortos esperando alguma esmola de Gaia e choramingando que o mundo deve alguma coisa a eles?
Por todo o pátio, fantasmas e ghouls ficaram de pé e sacaram suas armas.
— Cuidado! — berrou Piper para a multidão. — Os homens neste palácio são seus inimigos. Cada um deles os esfaquearia pelas costas na primeira oportunidade!
Nas semanas anteriores, o charme de Piper tinha ficado ainda mais poderoso. Ela agora tinha falado a verdade, e a multidão acreditava. Todos olharam de soslaio uns para os outros, as mãos ainda no cabo de suas espadas.
A mãe de Jason se aproximou dele.
— Querido, pense bem. Desista da missão. O Argo II nunca vai conseguir fazer a viagem até Atenas. E mesmo que consiga, há o problema da Atena Partenos.
Seu corpo estremeceu.
— O que quer dizer com isso?
— Não finja ignorância, querido. Gaia sabe sobre sua amiga Reyna, sobre o filho de Hades, Nico, e o sátiro Hedge. Para matá-los, a Mãe Terra enviou seu filho mais perigoso: o caçador que nunca descansa. Mas você não precisa morrer.
Os ghouls e fantasmas se aproximaram, todos os duzentos encarando Jason com expectativa, como se ele fosse puxar um coro do hino nacional a qualquer momento. O caçador que nunca descansa. Jason não sabia quem era esse caçador, mas precisava alertar Reyna e Nico. Ou seja: tinha que sair dali vivo.
Ele olhou para Annabeth e Piper. As duas estavam prontas, à espera de seu sinal.
Ele se obrigou a encarar os olhos da mãe. Ela parecia a mesma mulher que o havia abandonado nas florestas de Sonoma catorze anos antes. Mas Jason não era mais uma criancinha. Era um veterano de
guerra, um semideus que tinha enfrentado a morte inúmeras vezes. E o que ele viu diante de si não era sua mãe, pelo menos não o que ela era: amorosa, carinhosa, protetora. Um resquício, foi como Annabeth a chamou.
Michael Varus dissera que os espíritos ali eram sustentados pelos seus maiores desejos. O espírito de Beryl Grace literalmente brilhava de necessidade. Os olhos dela imploravam pela atenção de Jason. Ela estendeu os braços, desesperada para possuí-lo.
— O que você quer? — perguntou ele. — O que a trouxe até aqui?
— Eu quero viver! — exclamou ela. — Juventude! Beleza! Seu pai poderia ter me tornado imortal. Poderia ter me levado para o Olimpo, mas me abandonou. Você pode consertar isso, Jason. Você é meu valente guerreiro!
O aroma de limão amargou, como se ela estivesse começando a queimar.
Jason se lembrou de uma coisa que Thalia dissera: que a mãe deles fora ficando cada vez mais instável, até que seu desespero a levara à loucura. Ela havia morrido em um acidente de carro por dirigir embriagada. O vinho aguado no estômago de Jason se revirou. Ele decidiu que, se sobrevivesse àquele dia, nunca mais beberia álcool de novo.— Você é uma mania — concluiu Jason. A palavra lhe vinha à mente de seus estudos no Acampamento Júpiter, muito tempo antes. — Um
espírito da insanidade. Você foi reduzida a isso.
— Sim — concordou Beryl Grace. A imagem dela cintilou através de um espectro de cores. — Me abrace, filho. Sou tudo o que restou a você.
A voz do Vento Sul surgiu em sua mente: Você não pode controlar a sua ascendência, mas pode escolher sua herança. Jason sentiu como se estivesse sendo remontado, uma camada de cada
vez. Seu coração se acalmou. O frio deixou seus ossos. Sua pele se aqueceu ao sol da tarde.
— Não — declarou ele, e olhou para Annabeth e Piper. — Minhas lealdades não mudaram. Minha família apenas aumentou. Sou filho da Grécia e de Roma. — Ele encarou a mãe pela última vez. — Não sou seu filho.
Ele fez um sinal antigo para afastar o mal, três dedos partindo do coração, ao que o fantasma de Beryl Grace desapareceu com um chiado suave, como um suspiro de alívio.
O ghoul Antínoo jogou sua taça para o lado, avaliando Jason com uma expressão de nojo preguiçoso.
— Bem… — disse ele. — Acho que está na hora de matar vocês.
Os inimigos se aproximaram por todos os lados.

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O Sangue do Olimpo - CAP. II

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II
JASON

NATURALMENTE, A SITUAÇÃO ERA PIOR do que Jason havia esperado.
Do contrário, não teria graça.
Espiando através de oliveiras, no alto da colina, ele viu o que parecia
uma festa muito louca de uma fraternidade de zumbis.
As ruínas em si não eram muito impressionantes: alguns muros de
pedra, um pátio interno coberto de mato, uma escadaria escavada na
rocha e que não levava a lugar algum. Tábuas de compensado cobriam
um poço e um andaime de metal sustentava um arco com uma rachadura.
Mas sobreposta às ruínas havia outra camada de realidade: uma
miragem espectral do palácio tal como devia ter sido em seu auge.
Paredes brancas de estuque, com sacadas em toda a sua extensão,
erguiam-se a uma altura equivalente a três andares. Pórticos com colunas
cercavam o átrio central, que tinha uma fonte enorme e braseiros de
bronze. Em doze mesas de banquete, ghouls riam, comiam e provocavam
uns aos outros.
Jason esperava cerca de cem espíritos, mas havia o dobro ali, todos
dando em cima das criadas espectrais que serviam às mesas, quebrando
pratos e taças e basicamente fazendo uma grande bagunça.
A maioria se parecia com os Lares do Acampamento Júpiter —
espectros transparentes roxos, de túnica e sandálias —, mas alguns
tinham corpos em decomposição com carne cinzenta, chumaços
emaranhados de cabelo e feridas horríveis. Outros pareciam mortaiscomuns, em togas, ternos bem-cortados ou uniformes militares. Jason
chegou a ver um vestindo a camiseta roxa do Acampamento Júpiter e
uma armadura de legionário romano.
No centro do átrio, um ghoul de pele cinza vestindo uma túnica grega
esfarrapada desfilava pelo grupo segurando um busto de mármore acima
da cabeça como se fosse o troféu de uma competição esportiva. Os
outros fantasmas aplaudiam e lhe davam tapinhas nas costas. À medida
que o ghoul se aproximava, Jason percebeu que ele tinha uma flecha na
garganta — a haste com penas projetava-se de seu pomo de adão. Havia
algo ainda mais perturbador: o busto que ele carregava… aquele era
Zeus?
Era difícil ter certeza. A maioria das estátuas de deuses gregos era
parecida. Mas o rosto barbado e rabugento lembrava demais o Zeus
hippie gigante do chalé 1 do Acampamento Meio-Sangue.
— Nossa próxima oferenda! — gritou o ghoul, sua voz saindo aguda
por causa da flecha em sua garganta. — Vamos alimentar a Mãe Terra!
Os outros gritaram e bateram suas taças na mesa. O ghoul abriu
caminho até a fonte central. A multidão lhe deu passagem, e Jason
percebeu que a fonte não estava cheia de água. Do pedestal de um metro
de altura jorrava para o alto um gêiser de areia, que se abria em arco e
caía como uma cortina de partículas brancas na base circular.
O ghoul jogou o busto de mármore na fonte. Assim que a cabeça de
Zeus atravessou a ducha de areia, a rocha se desintegrou como se
estivesse passando por um triturador. A areia brilhou como ouro, a cor
do icor, o sangue divino. Então a montanha inteira trovejou com um BUM
abafado, como se estivesse arrotando após uma refeição.
Os mortos vibraram em aprovação.
— Sobrou alguma estátua? — gritou o ghoul para os outros. — Não?
Então acho que vamos ter que esperar chegarem deuses de verdade para
sacrificarmos!Seus camaradas riram e aplaudiram enquanto o ghoul se sentava à
mesa à mais próxima.
Jason apertou seu cajado.
— Esse cara acabou de desintegrar meu pai. Quem ele pensa que é?
— Se eu fosse chutar, diria que é Antínoo — disse Annabeth. — Um
dos líderes dos pretendentes. Se me lembro bem, foi Odisseu quem
acertou aquela flecha no pescoço dele.
Piper estremeceu.
— E a gente achando que esse tipo de coisa mata. E os outros? Por
que são tantos?
— Não sei — admitiu Annabeth. — Talvez sejam novos recrutas de
Gaia. Devem ter conseguido voltar à vida antes que fechássemos as
Portas da Morte. Alguns são apenas espíritos.
— Alguns são ghouls — disse Jason. — Os que têm feridas abertas e
pele cinzenta, como Antínoo… Já lutei contra outros como ele.
Piper deu um leve puxão em sua pena de harpia.
— Eles podem ser mortos?
Jason se lembrou de uma missão que ele tinha cumprido para o
Acampamento Júpiter anos antes, em San Bernardino.
— Não com facilidade. Eles são fortes, rápidos e inteligentes. E
comem carne humana.
— Fantástico — murmurou Annabeth. — Não vejo opção além de
seguirmos o plano. Vamos nos separar, nos infiltrar e descobrir por que
eles estão aqui. Se as coisas não correrem bem…
— Recorremos ao plano B — completou Piper.
Jason odiava o plano B.
Antes de deixarem o barco, Leo tinha dado a cada um deles um
sinalizador do tamanho de uma vela de aniversário. Supostamente, se os
jogassem para cima, os sinalizadores subiriam no ar em um facho de luz
branca que alertaria o Argo II de que o grupo estava com problemas.Naquele instante, Jason e as garotas teriam alguns segundos para se
abrigar antes que as catapultas do navio abrissem fogo sobre o palácio,
envolvendo tudo em fogo grego e estilhaços de bronze celestial.
Não era um plano muito tranquilo, mas pelo menos Jason sentia
satisfação em saber que podia convocar um ataque aéreo sobre aquele
grupinho de mortos barulhentos se a situação ficasse complicada. Claro,
isso se os três conseguissem escapar a tempo. E supondo que as velas do
juízo final de Leo não disparassem acidentalmente — isso às vezes
acontecia com as invenções dele —, o que faria o clima esquentar
bastante, com noventa por cento de risco de um apocalipse calcinante.
— Cuidado lá embaixo — disse ele a Piper e Annabeth.
Piper seguiu pelo lado esquerdo do cume. Annabeth foi pelo direito.
Jason se levantou com seu cajado e saiu mancando na direção das ruínas.
* * *
Ele se lembrou da última vez em que mergulhara em uma multidão de
espíritos malignos, na Casa de Hades. Se não tivesse sido por Frank
Zhang e Nico di Angelo…
Pelos deuses… Nico.
Durante os últimos dias, sempre que Jason sacrificava uma porção de
sua refeição para Júpiter, rezava ao pai para que ajudasse Nico. Aquele
garoto tinha passado por muita coisa, e mesmo assim se oferecera para o
trabalho mais difícil: transportar a Atena Partenos até o Acampamento
Meio-Sangue. Se ele não conseguisse, os semideuses romanos e gregos
entrariam em guerra. Aí, independentemente do que acontecesse na
Grécia, o Argo II não teria um lar para o qual voltar.
Jason passou pelo fantasmagórico pórtico do palácio. Percebeu bem a
tempo que uma seção do piso de mosaico à sua frente era apenas umailusão que cobria um poço de escavação de três metros de profundidade.
Ele desviou e chegou ao pátio.
Os dois níveis de realidade lhe lembravam a fortaleza dos titãs no
Monte Otris, um labirinto de mármore negro com paredes que se
transformavam aleatoriamente em sombras para então se solidificarem
outra vez. Mas durante aquela luta Jason estava com cem legionários.
Agora, tudo o que tinha era o corpo de um velho, um cajado e duas
amigas em vestidos provocantes.
Quinze metros à frente dele, Piper se movia em meio à multidão,
sorrindo e enchendo taças de vinho para os convivas fantasmagóricos.
Se ela estava com medo, não demonstrava. Até aquele momento, os
fantasmas não estavam prestando muita atenção nela. A magia de Hazel
devia estar funcionando.
À direita dele, Annabeth recolhia pratos e taças vazios. Ela não
estava sorrindo.
Jason se lembrou da conversa que tivera com Percy antes de deixar o
navio.
Percy permanecera no Argo II para protegê-los de ameaças vindas do
mar, mas não tinha gostado da ideia de Annabeth participar daquela
expedição sem ele, ainda mais porque seria a primeira vez que iriam se
separar desde que tinham voltado do Tártaro.
Ele tinha puxado Jason para um canto.
— Ei, cara… Annabeth ia me matar se eu sugerisse que ela precisa da
proteção de alguém.
Jason rira.
— É, ia mesmo.
— Mas tome conta dela, está bem?
Jason apertara o ombro do amigo.
— Vou cuidar para que ela volte sã e salva para você.
Jason agora se perguntava se conseguiria manter essa promessa.Ele se aproximou da multidão.
Uma voz rouca gritou:
— IRO! — Antínoo, o ghoul com a flecha na garganta, olhava
diretamente para ele. — É você, seu mendigo velho?
A magia de Hazel estava fazendo seu trabalho. Uma brisa fria ondulou
pelo rosto de Jason conforme a Névoa alterava sutilmente sua aparência,
mostrando aos pretendentes o que eles esperavam ver.
— Eu mesmo! — disse Jason. — Iro!
Doze fantasmas se viraram para ele. Alguns fecharam a cara e
levaram a mão ao cabo de suas roxas e reluzentes espadas. Só então
Jason se perguntou se Iro era inimigo deles, mas agora ele já havia
assumido o papel.
Ele avançou com dificuldade, fazendo sua melhor expressão de velho
mal-humorado.
— Acho que estou atrasado para a festa. Espero que tenham guardado
um pouco de comida para mim.
Um dos fantasmas olhou para ele com desprezo.
— Mendigo ingrato. Posso matá-lo, Antínoo?
Os músculos do pescoço de Jason se retesaram.
Antínoo olhou para ele por alguns segundos, depois riu.
— Hoje estou de bom humor. Venha, Iro, junte-se a nós.
Jason não tinha muita escolha. Sentou-se de frente para Antínoo,
enquanto mais fantasmas se aglomeravam ao redor deles, observando-os
como se esperassem ver uma disputa bem violenta de queda de braço.
De perto, os olhos de Antínoo eram amarelos. Seus lábios, finos
como papel, se abriam sobre dentes afiados. De início, Jason achou que
o cabelo negro encaracolado do ghoul estava se decompondo. Então
percebeu que um fluxo permanente de terra escorria do couro cabeludo
de Antínoo, caindo sobre seus ombros. Placas de lama enchiam feridasantigas na pele cinzenta do ghoul. Mais terra escorria da base da ferida
de flecha em sua garganta.
O poder de Gaia, pensou Jason. A terra é o que está mantendo esse
cara em pé.
Antínoo colocou uma taça dourada e um prato cheio de comida na
frente de Jason.
— Eu não esperava vê-lo aqui, Iro. Mas até um mendigo pode querer
sua vingança. Beba. Coma.
Um líquido vermelho espesso balançava no interior da taça. No prato
havia um pedaço fumegante de carne de origem duvidosa.
O estômago de Jason se embrulhou. Mesmo que a comida dos ghouls
não o matasse, sua namorada vegetariana ficaria um mês sem beijá-lo.
Ele se lembrou do que Noto, o Vento Sul, lhe dissera: Um vento que
sopra à toa não serve para nada.
Toda a carreira de Jason no Acampamento Júpiter tinha sido
construída com base em escolhas cuidadosas. Ele mediava brigas entre
semideuses, ouvia todos os lados de uma discussão, firmava acordos.
Até quando contrariava as tradições romanas, pensava antes de agir. Não
era do tipo impulsivo.
Noto o avisara que essa hesitação acabaria por matá-lo. Jason tinha
que parar de ponderar e começar a tomar atitudes.
Se ele era um mendigo ingrato, tinha que agir como um.
Ele arrancou um naco de carne com os dedos e o enfiou na boca.
Bebeu avidamente o líquido vermelho, que felizmente tinha sabor de
vinho aguado, não era sangue nem veneno. Jason lutou contra a ânsia de
vômito, mas não morreu nem explodiu.
— Hummm! — Ele esfregou a boca. — Agora me contem sobre
essa… como vocês chamaram mesmo? Vingança? Onde eu me inscrevo?
Os fantasmas riram. Um lhe deu um empurrão no ombro, e Jason ficou
alarmado por poder realmente senti-lo.No Acampamento Júpiter, Lares não tinham substância física.
Aparentemente, aqueles espíritos tinham, o que significava mais
inimigos que podiam golpeá-lo, esfaqueá-lo ou decapitá-lo.
Antínoo debruçou-se para a frente.
— Conte-me, Iro, o que você tem a oferecer? Não precisamos mais
de você para enviar nossas mensagens, como nos velhos tempos. Com
certeza você não é um guerreiro. Pelo que me lembro, Odisseu quebrou
seu maxilar e o jogou no chiqueiro junto com os porcos.
Os neurônios de Jason se incendiaram. Iro… o velho que levava
mensagens para os pretendentes em troca de restos de comida. Iro tinha
sido uma espécie de sem-teto de estimação. Quando Odisseu voltou para
casa, disfarçado de mendigo, Iro achou que ele estava invadindo seu
território. Os dois começaram a discutir…
— Você fez Iro… — Jason hesitou. — Você me fez lutar contra
Odisseu. Apostou dinheiro nisso. Mesmo quando Odisseu tirou a camisa
e você viu como ele era musculoso… mesmo assim você me fez lutar
com ele. Não se importava se eu ia viver ou morrer!
Antínoo exibiu os dentes pontudos.
— É claro que eu não me importava. E continuo sem me importar!
Mas você está aqui, então Gaia deve ter tido uma razão para permitir que
você voltasse ao mundo mortal. Conte-me, Iro, por que acha que merece
uma parte de nosso espólio?
— Que espólio?
Antínoo abriu os braços.
— O mundo inteiro, meu amigo. Quando nos conhecemos, queríamos
apenas as terras, o dinheiro e a esposa de Odisseu.
— Principalmente a esposa dele! — Um fantasma careca vestindo
roupas esfarrapadas cutucou Jason nas costelas com o cotovelo. —
Aquela Penélope era muito gostosa, um piteuzinho!Jason viu Piper servindo bebidas na mesa ao lado. Ela levou
discretamente o dedo à boca, como se fosse vomitar, depois voltou a
flertar com os homens mortos.
Antínoo soltou um riso de escárnio.
— Eurímaco, seu covarde chorão. Você não tinha a menor chance
com Penélope. Eu me lembro de você se debulhando em lágrimas e
implorando a Odisseu por sua vida, botando a culpa de tudo em mim!
— Como se isso tivesse ajudado. — Eurímaco levantou a camisa
esfarrapada, revelando um buraco espectral de uns três centímetros de
diâmetro no meio do peito. — Odisseu me acertou no coração, só porque
eu queria me casar com a mulher dele!
— De qualquer modo… — Antínoo se virou para Jason — …agora
estamos visando a um prêmio muito maior. Quando Gaia destruir os
deuses, vamos dividir entre nós os restos do mundo mortal!
— Eu quero Londres! — berrou um ghoul sentado à mesa ao lado.
— Montreal! — gritou outro.
— Duluth! — berrou um terceiro, o que interrompeu a conversa por
um momento, pois os fantasmas olhavam confusos para ele.
A carne e o vinho se transformaram em chumbo no estômago de Jason.
— E o resto desses… convidados? Contei pelo menos duzentos.
Metade deles eu não reconheço.
Os olhos amarelos de Antínoo brilharam.
— Todos desejam os favores de Gaia. Todos têm reclamações e
ressentimentos contra os deuses ou seus heróis de estimação. Aquele
patife ali é Hípias, antigo tirano de Atenas. Foi deposto e se aliou com
os persas para atacar o próprio povo. Não tem nenhum princípio moral.
Faria qualquer coisa por poder.
— Obrigado! — retrucou Hípias.
— Aquele canalha com a coxa de peru na boca — prosseguiu Antínoo
— é Asdrúbal de Cartago. Ele tem contas a acertar com Roma.— Aham — concordou o cartaginês.
— E Michael Varus…
Jason engasgou.
— Quem?
Do outro lado da fonte de areia, o cara de cabelo negro com camiseta
e armadura de legionário se virou a fim de olhar para eles. Seus traços
estavam borrados, esfumaçados e indefinidos, então Jason achou que ele
fosse algum tipo de espírito, mas a tatuagem da legião em seu antebraço
era bem nítida: SPQR, a cabeça com duas faces do deus Jano e seis marcas
por anos de serviço. Sobre o peitoral pendiam a medalha de pretor e o
emblema da Quinta Coorte.
Jason não chegara a conhecer Michael Varus; o pretor infame havia
morrido nos anos oitenta. Mesmo assim, Jason se arrepiou todo quando
seu olhar cruzou com o de Varus. Aqueles olhos sombrios pareciam
penetrar pelo disfarce de Jason.
Antínoo fez um gesto desdenhoso.
— É um semideus romano. Perdeu a águia de sua legião no… Alasca,
não foi? Não importa. Gaia deixa que ele fique por aqui. O garoto insiste
em dizer que sabe como derrotar o Acampamento Júpiter. Mas você, Iro,
ainda não respondeu a minha pergunta. Por que devemos aceitá-lo em
nosso grupo?
Os olhos mortos de Varus tinham deixado Jason nervoso. Ele podia
sentir a Névoa se dissipando a sua volta, como consequência de sua
incerteza.
De repente, Annabeth surgiu junto ao ombro de Antínoo.
— Mais vinho, meu senhor? Ops!
Ela derramou o conteúdo de um jarro de prata na nuca dele.
— Argh! — O ghoul arqueou as costas. — Garota tola! Quem a
deixou voltar do Tártaro?— Um titã, meu senhor. — Annabeth baixou a cabeça em um gesto de
desculpas. — Posso lhe trazer algumas toalhas úmidas? Sua flecha está
pingando.
— Suma daqui!
Annabeth encarou Jason, em uma mensagem silenciosa de apoio, e em
seguida desapareceu na multidão.
O ghoul se secou, o que deu a Jason a oportunidade de organizar seus
pensamentos.
Ele era Iro… ex-mensageiro dos pretendentes. Por que deveria estar
ali? Por que eles deveriam recebê-lo?
Jason pegou a faca mais próxima e a fincou na mesa, dando um susto
nos fantasmas a sua volta.
— Por que devem me aceitar? — resmungou ele. — Porque eu ainda
levo mensagens, suas criaturas estúpidas! Acabei de vir da Casa de
Hades para ver o que vocês estão tramando!
Essa última parte era verdade, e pareceu fazer Antínoo hesitar. O
ghoul olhou para ele, o vinho ainda escorrendo da haste da flecha
cravada em sua garganta.
— Quer que eu acredite que Gaia mandou logo você, um mendigo,
para nos espionar?
Jason riu.
— Eu fui um dos últimos a deixar Épiro antes que as Portas da Morte
se fechassem! Vi a sala onde Clítio mantinha guarda sob um teto
abobadado revestido de lápides. Caminhei pelo chão de joias e ossos do
Necromanteion!
Isso também era verdade. Em torno da mesa, os fantasmas se agitaram
e murmuraram.
— Então, Antínoo… — Jason cutucou o ghoul com o indicador. —
Talvez você devesse me explicar por que é digno dos favores de Gaia.
Tudo o que vejo é um bando de gente morta preguiçosa que não faz nadaalém de se divertir, sem ajudar no esforço de guerra. O que devo dizer à
Mãe Terra?
Pelo canto do olho, Jason viu Piper abrir um sorriso de aprovação.
Depois ela voltou sua atenção para um sujeito grego roxo reluzente que
tentava fazê-la sentar em seu colo.
Antínoo segurou a faca que Jason cravara na mesa. Ele a arrancou e
observou a lâmina.
— Se você é enviado de Gaia, deve saber que estamos aqui
cumprindo ordens. Fomos mandados por Porfírion. — Antínoo passou a
faca na palma da própria mão. Em vez de sangue, escorreu terra do
corte. — Você conhece Porfírion, não?
Jason lutou para manter a náusea sob controle. Ele se lembrava muito
bem de Porfírion e da batalha na Casa dos Lobos.
— O rei dos gigantes… pele verde, mais de dez metros de altura,
olhos brancos, armas trançadas nos cabelos. É claro que eu o conheço.
Ele impressiona muito mais que você.
Ele achou melhor não mencionar que na última vez que vira o rei dos
gigantes, arrebentara sua cabeça com um raio.
Pela primeira vez Antínoo pareceu não saber o que dizer, mas seu
amigo fantasma careca passou o braço ao redor dos ombros de Jason.
— Ora, ora, amigo! — Eurímaco cheirava a vinho azedo e a fios
elétricos queimados. Seu toque fantasmagórico fez as costelas de Jason
formigarem. — Tenha certeza de que não era nossa intenção questionar
suas credenciais! É só que, bem, se você falou com Porfírion em Atenas,
sabe por que estamos aqui. Garanto que estamos fazendo exatamente o
que ele mandou!
Jason tentou esconder a surpresa. Porfírion em Atenas.
Gaia prometera acabar com os deuses destruindo suas raízes. Para
Quíron, mentor de Jason no Acampamento Meio-Sangue, isso significavaque os gigantes iriam tentar despertá-la da terra no Monte Olimpo
original. Mas agora…
— A Acrópole — disse Jason. — Os mais antigos templos dedicados
aos deuses ficam lá, no meio de Atenas. É onde Gaia vai despertar.
— É claro! — disse Eurímaco, rindo. A ferida em seu peito soltou um
estalo, como o respiradouro de um golfinho. — E, para chegar lá,
aqueles semideuses intrometidos vão ter que viajar pelo mar, certo? Eles
sabem que é perigoso voar sobre a terra.
— O que significa que vão ter que passar por esta ilha — concluiu
Jason.
Eurímaco assentiu com ansiedade. Ele tirou o braço dos ombros de
Jason e enfiou o dedo em sua taça de vinho.
— Nesse momento, eles terão que fazer uma escolha, certo?
Em cima da mesa, o fantasma traçou a linha de uma costa, o vinho
tinto brilhando de forma destacada sobre a madeira. Ele desenhou a
Grécia como uma ampulheta deformada — uma bolha grande e tremida
para a parte norte do continente, depois outra bolha abaixo, quase do
mesmo tamanho, para a região conhecida como Peloponeso. As duas
eram divididas por uma linha estreita de mar, o Canal de Corinto.
Jason não precisava do desenho. Ele e o restante da tripulação
haviam passado o dia anterior estudando mapas.
— A rota mais direta — disse Eurímaco — seria rumar para o leste a
partir daqui, pelo Canal de Corinto. Mas se eles tentarem ir por lá…
— Chega — interrompeu Antínoo. — Você fala demais, Eurímaco.
O fantasma fez um ar de ofendido.
— Eu não ia contar tudo a ele! Só sobre os exércitos de ciclopes
estacionados nas duas margens. E os espíritos da tempestade furiosos no
ar. E aqueles monstros marinhos terríveis que Ceto mandou para infestar
as águas. E, é claro, se o navio conseguir chegar a Delfos…
— Idiota!Antínoo se esticou por cima da mesa e agarrou o pulso do fantasma.
Uma crosta fina de terra se espalhou a partir da mão do ghoul e subiu
pelo braço espectral de Eurímaco.
— Não! — exclamou Eurímaco. — Por favor! Eu… eu só queria…
O fantasma gritava enquanto a terra cobria seu corpo como uma
carapaça, que depois se despedaçou, não deixando nada além de um
montinho de poeira. Eurímaco havia desaparecido.
Antínoo se recostou em seu assento e esfregou as mãos para limpá-
las. Os outros pretendentes à mesa o observavam em um silêncio
apreensivo.
— Desculpe, Iro. — O ghoul deu um sorriso frio. — O que você
precisa saber é que os caminhos para Atenas estão bem protegidos,
como prometemos. Os semideuses terão que se arriscar no canal, que é
intransponível, ou navegar em torno do Peloponeso, o que também não é
lá muito seguro. De qualquer modo, é improvável que eles sobrevivam
por tempo suficiente para fazer essa escolha. Assim que chegarem a
Ítaca, nós saberemos. Vamos detê-los aqui, e Gaia vai ver nosso valor.
Pode levar essa mensagem de volta para Atenas.
O coração de Jason martelava no peito. Ele nunca havia visto nada
como a carapaça de terra que Antínoo invocara para destruir Eurímaco.
E não queria descobrir se aquele poder funcionava em semideuses.
Além disso, o ghoul parecia confiante em sua capacidade de detectar
o Argo II. A magia de Hazel estava, pelo visto, escondendo o navio, mas
não havia como dizer quanto tempo isso ia durar.
Jason tinha a informação que eles haviam ido buscar. O objetivo era
chegarem a Atenas. A rota mais segura, ou pelo menos a rota menos
impossível, era dar a volta pela costa sul da Grécia. Era dia vinte de
julho. Eles só tinham doze dias até o planejado despertar de Gaia: em
primeiro de agosto, no antigo Banquete da Esperança.
Jason e as garotas precisavam partir enquanto tinham chance.Havia, porém, mais alguma coisa que o incomodava, uma sensação
gelada de mau pressentimento, como se ele ainda não tivesse ouvido as
piores notícias.
Eurímaco mencionara Delfos. Jason tinha a esperança de visitar o
antigo local do oráculo de Apolo e talvez conseguir alguma informação
sobre seu futuro, mas se o lugar fora tomado por monstros…
Ele empurrou o prato de comida fria para o lado.
— Parece que está tudo sob controle aqui. Para o seu bem, Antínoo,
espero que esteja mesmo. Esses semideuses são muito sagazes. Eles
fecharam as Portas da Morte. Não íamos querer que eles passassem
despercebidos por vocês, talvez com a ajuda de Delfos.
Antínoo gargalhou.
— Não tem como. Delfos não está mais sob o controle de Apolo.
— E-eu entendo. Mas e se os semideuses fizerem o caminho mais
longo e derem a volta no Peloponeso?
— Você se preocupa demais. Essa viagem nunca foi segura para
semideuses, e é muito longa. Além disso, Vitória está fora de controle
em Olímpia. Enquanto isso continuar, não há como os semideuses
vencerem esta guerra.
Jason também não entendeu o que ele queria dizer com isso, mas
assentiu.
— Muito bom. Vou relatar tudo ao rei Porfírion. Obrigado pela…
hum, pela refeição.
Mas Michael Varus, junto à fonte, disse:
— Espere.
Jason engoliu um palavrão. Ele estava tentando ignorar o pretor
morto, mas naquele momento Varus se aproximou, envolto por uma aura
branca enevoada. Seus olhos sombrios pareciam poços. Ele trazia
pendurado na cintura um gládio de ouro imperial.
— Você precisa ficar — disse Varus.Antínoo lançou um olhar irritado para o fantasma.
— Qual o problema, legionário? Se Iro quer ir embora, deixe que vá.
Ele fede!
Os outros fantasmas deram risadas nervosas. Do outro lado do pátio,
Piper olhou preocupada para Jason. Um pouco mais longe, Annabeth
discretamente pegou uma faca da travessa de carne mais próxima.
Varus levou a mão ao cabo de sua espada. Apesar do calor, seu
peitoral estava coberto de gelo.
— Perdi minha coorte duas vezes no Alasca, uma vez em vida, uma
na morte para um graecus chamado Percy Jackson. Mesmo assim, vim
aqui atender ao chamado de Gaia. Sabe por quê?
Jason engoliu em seco.
— Teimosia?
— Este é um lugar de desejos — disse Varus. — Todos nós fomos
atraídos para cá, sustentados não só pelo poder de Gaia, mas também
pelos nossos maiores anseios. A ambição de Eurímaco. A crueldade de
Antínoo…
— Você me lisonjeia — murmurou o ghoul.
— O ódio de Asdrúbal — prosseguiu Varus. — A amargura de
Hípias. Minha ambição. E você, Iro? O que o trouxe até aqui? O que um
mendigo mais deseja? Seria uma casa?
Um formigamento desconfortável surgiu na nuca de Jason, a mesma
sensação que ele tinha quando uma grande tempestade elétrica estava
prestes a começar.
— Eu preciso ir — disse ele. — Tenho mensagens para entregar.
Michael Varus sacou a espada.
— Meu pai é Jano, o deus de duas faces. Estou acostumado a ver
através de máscaras e ilusões. Sabe, Iro, por que temos tanta certeza de
que os semideuses não vão passar por nossa ilha sem serem notados?Jason repassou mentalmente todo o seu repertório de palavrões em
latim. Tentou calcular quanto tempo levaria para pegar seu sinalizador de
emergência e dispará-lo. Com sorte, conseguiria ganhar tempo suficiente
para que as garotas encontrassem abrigo antes que aquele bando de caras
mortos o matasse.
Ele se virou para Antínoo.
— Você está no comando aqui ou não? Talvez deva amordaçar seu
romano.
O ghoul respirou fundo. A flecha vibrou em sua garganta.
— Ah, mas isso pode ser divertido. Continue, Varus.
O pretor morto levantou a espada.
— Nossos desejos nos revelam. Eles mostram quem realmente somos.
Alguém está aqui por sua causa, Jason Grace.
A multidão atrás de Varus se afastou. O fantasma tremeluzente de uma
mulher se aproximou, e Jason achou que seus ossos estavam virando
gelatina.
— Querido — disse o fantasma de sua mãe. — Você voltou para casa.
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